Cultura e militância marcam os 50 anos do Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno celebrados amanhã. Em alusão à data, a exposição Nós e TU resgata a memória do espaço

Cristina Fontenele
cotidiano@opovo.com.br

O Teatro Universitário (TU) Paschoal Carlos Magno comemora 50 anos amanhã. Inaugurado em 26 de junho de 1965, por este cinquentão, localizado na efervescência do bairro Benfica, já passaram nomes relevantes das artes cearenses.

Para celebrar a data, será aberta hoje a exposição Nós e TU. Segundo Rafael Vieira, historiador do Memorial da Universidade Federal do Ceará (UFC), a mostra consiste na apresentação de 20 painéis com fotografias de atrizes e atores que passaram pelo TU e de imagens dos espetáculos e ações realizadas no equipamento. A ideia é oferecer uma experiência interativa, no qual as pessoas que conhecem a história do Teatro possam registrar suas lembranças, identificando os artistas e as peças encenadas. (Leia coordenada na página 3).

Vieira comenta que esta é uma maneira de obter mais informações de uma história ainda viva. “Percebemos que a documentação do Teatro não está bem organizada e muitas pessoas que passaram por lá já estão idosas. Então, é um esforço no sentido de resgatar essa memória”.

O ator e dramaturgo Ricardo Guilherme participou ativamente da história do Teatro Universitário. Ele foi o propositor/fundador da Licenciatura em Teatro da UFC, implantada em 2010. Ricardo lembra que o teatro sediou a militância de grupos artísticos, em especial a formação dos oriundos da Licenciatura em Teatro do Instituto de Cultura e Arte.

Ele revela ainda que o Teatro foi um dos epicentros da resistência à ditadura militar, de 1965, até a abolição da censura prevista pela Constituição de 1988. “O TU viveu a transgressão e encarou a repressão”. Além de ter sediado o Curso de Arte Dramática (CAD), de 1964 a 2009, o espaço ensejou intensos movimentos culturais de Fortaleza, da década de 1960 ao início do século XXI, com programação de peças, concertos, conferências e shows diversos. “Nele, passado, presente e futuro formam um tempo-trio que a um só tempo nos perpassa”, desenha Ricardo Guilherme.

Novo contexto cênico

Na gestão do Teatro Universitário desde 2011, o professor Hector Briones diz que nos últimos três anos o espaço vem funcionando com pauta continuada, de segunda a sábado, recebendo espetáculos que permanecem por semanas em cartaz. Briones destaca que o TU tem atendido a demandas de diferentes grupos, inclusive de outras cidades, transformando-se em um teatro “multiespacial”.

O diretor, no entanto, revela uma defasagem no aparato de iluminação e sonorização do espaço, e ressalta a necessidade de renovar toda a estrutura para ampliar suas atividades. “De 2012 a 2014 saímos de um estado quase estagnado para um público de 10 mil pessoas”, orgulha-se.

Com reforma aprovada, mas aguardando o início do processo de licitação, Briones explica que as intervenções anteriores foram “paliativas e parciais”. De acordo com ele, a reforma já deveria ter acontecido em 2014, mas no momento está sem previsão, devido às mudanças na reitoria da UFC e aos cortes na verba da universidade.

A proposta de reforma consiste em uma “requalificação integral do espaço”, construindo um palco polivalente na parte de trás, e o atual voltaria a ser como originariamente, um pouco menor e no estilo italiano, possibilitando assim dois espaços cênicos. Quando a verba for liberada, os trabalhos de reforma devem durar até um ano e meio, informa Briones, período no qual o TU permanecerá fechado.

Projetos de residência

O grupo Pavilhão da Magnólia é residente no TU desde 2012. O diretor Nelson Albuquerque comenta que o primeiro ano de ocupação foi para tentar compreender a relação do espaço com Fortaleza, realizando ações pontuais como o “Projeto te Amamos Reforma”, que buscou sensibilizar o público. Em 2013, Albuquerque diz que ocorreu um “boom”, com o Teatro ganhando mais visibilidade e diversas temporadas de apresentação. Já 2014 foi a “consolidação desse processo”, quando o TU conseguiu “se assentar e se tornar um espaço importante de diálogo entre a universidade e Fortaleza”.

No projeto de residência, o TU cede uma sala para abrigar o material e os ensaios do grupo, que deve em contrapartida movimentar o espaço por pelo menos três anos. O acordo com o Pavilhão se encerra em agosto, com as apresentações de Baldio, espetáculo que marca os 10 anos do grupo. Nelson afirma que o futuro da parceria será decidido com a direção do Teatro.

Linha do tempo

1964 – A UFC adquire o prédio do antigo EducandárioSanta Maria. Em anexo, já funcionava a sede do Curso de Arte Dramática (CAD), desde 1960.

1965 – Em 26 de junho, por iniciativa do professor, ator e diretor B. de Paiva é inaugurado o Teatro Universitário. Na estreia, a montagem de “O Demônio Familiar”, de José de Alencar, sob direção de B. de Paiva.

1978 – 1ª reforma, assinalada pela estreia, em 27 de dezembro, da peça “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, sob a direção de Edilson Soares.

1980
– 2ª reforma comampliação do palco, redução da plateia, instalação de ar condicionado, criação de praça da frente e adoção do nome Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno. Em 29 de agosto, numa espécie de reinauguração, estreia da peça“Cantochão Para Uma Esperança Demorada”, com texto e direção de B. de Paiva.

2001 – 3ª reforma com elevação e inclinação da plateia, destruição da praça fronteiriça para a instalação de bancos e palco do chamado Teatro ao Ar Livre Gracinha Soares. Estreia em 05 de novembro do espetáculo “Cancioneiro de Lampião”, de Nertan Macedo, com direção de B. de Paiva.

2006 – 4ª reforma, o Teatro Gracinha Soares deixa de ser ao ar livre e ocupa uma das salas do CAD(agora sob da gestão de Gil Brandão), recriação da praça fronteiriça ao TU, inaugurada com performances de alunos e atores convidados. Em 12 de dezembro, apresenta-se “O Auto do Divino Nascimento”, de José Mapurunga.

2009/2010
– 5ª reforma com ampliaçãodo palco, entre outras providências. Em 18 de fevereiro de 2010, a aula-espetáculo “No Ato”, de Ricardo Guilherme, marca tanto o início das atividades do Curso de Graduação em Artes Cênicas (Licenciatura em Teatro), vinculado ao Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC, como as comemorações do cinquentenário de criação do CAD (1960-2010).

Com informações de Ricardo Guilherme – Ator, dramaturgo, diretor teatral, professor universitário e propositor/fundador da Licenciatura em Teatro da UFC.